Uma mãe pode morrer?

28 mar

Assistindo ao horror dos atentados no aeroporto de Bruxelas uma cena me chamou a atenção:  em meio a fumaça e ao caos ouvia-se a voz de uma criança pequena “mãe cadê você? O que está acontecendo?”. Por um instante pensei no pavor dessa criança, buscando a referência materna para lhe acalmar e situar. Logo após o silêncio. Aquele silêncio arrebatador de vazio, de uma resposta que não vem…

A resposta não vem em palavras. A voz falta e em sua falta é que aparece a verdadeira resposta, a ausência. Por pior que seja a catástrofe, a guerra, o conflito, a criança que tem sua mãe por perto geralmente se reorganiza mais facilmente. Isso porque a mãe representa a mediação da criança com o mundo. Em momentos difíceis a mãe funciona como porta-voz da criança, traduz o mundo externo, ajuda seu filho a entrar na vida.

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A mãe atrai o olhar do filho ao que ela vê e o ajuda a compreender como o mundo funciona

 

É claro que o título desse post mostra uma ingenuidade provocativa. Na verdade, indica um certo desejo inatingível de proteger os filhos, porém em um tema onde não temos  controle algum. A dor das crianças diante da perda materna é algo que produz abalos, muitas vezes irreparáveis. Ao analista cabe fazer falar, fazer sofrer, fazer algo com a falta. É claro que outras pessoas podem entrar, fazer laços com a criança ou aprofundar ainda mais o vínculo já existente. Mas cada relação é única.

Sabemos que nem todos os vínculos mãe e filho são bons. Para alguns, a distância é um alívio, o fim de um sofrimento de uma dura relação. Entretanto, esse laço nunca é banal, pois marca o primeiro encontro do bebê com a comunidade humana.

O mais curioso é que essa criança não tem idade. Perder a mãe retoma, reencontra a criança que cada adulto tem dentro de si. Essa criança aparece com força e se enluta com a perda. O que restará ao final do trabalho de luto é uma resposta que cada um vai dar, é algo particular. De modo geral, pode-se lembrar de momentos importantes, encontrar coisas que deveriam ter sido ditas, lamentar os erros… Nesse trabalho de ressignificação, por vezes se descobre uma outra mãe, suas facetas nunca vistas, características diferentes. Se ouve dos amigos “ela te amava”, “ela odiava as aulas de natação”, “ela poderia ter feito diferente”. Separa-se a mãe da mulher. Minha mãe era uma mulher, um ser humano, uma mortal… A mulher morre, mas a mãe continua viva em nossas memórias.

Acredito que teremos sorte quando pudermos sentir não raiva, ou ódio, arrependimento ou dor sem fim, mas apenas saudades. Saudades do colo, do cheiro, da proteção, de um conselho, um olhar ou somente de uma voz que responde “estou aqui querido”…

Abraços,

Caroline

 

 

O bebê chegou e o casamento acabou…

10 nov
Fazer pontes entre as diferenças aproxima o casal

Fazer pontes entre as diferenças aproxima o casal

Cada dia é mais comum observarmos casais que se separam logo após o nascimento de um bebê. Geralmente esse rompimento é feito de modo abrupto, deixando para trás raiva e rancor. Muitas crianças que chegam aos consultórios sofrem com os efeitos traumáticos das separações dos pais, sendo herdeiros das mágoas alheias.

Mas podemos pensar: por quê será que esses casais se separaram? O que será que se passou? É claro que a resposta é única e somente cada um pode dizer de si. Entretanto, há um ponto muito importante entre os casos e que se volta ao bebê. A chegada de um filho abala as estruturas, da mulher, de seu companheiro e, conseqüentemente, do casal.

Aquele tempo do namoro, de leveza da relação, de possibilidade de dedicação exclusiva ao parceiro, muitas vezes acaba com a chegada das responsabilidades trazidas pelo papel de ser pai e mãe. Isso não é fácil mesmo. Se adaptar a nova rotina do bebê, onde não há horários, não há regras e a demanda é exclusiva da criança pode acabar com alguns relacionamentos se os pais não apostarem em uma reconstrução da relação. Isso implica olhar seu parceiro e sua parceira com outros olhos; ela não é mais minha mulher ou meu marido somente. Tem mais alguém que precisa de amor e cuidados. Eu preciso esperar e atender o outro.

Uma aposta não é algo imediato. O papel de pai e mãe não é dado automaticamente como nos comerciais. A construção dos laços, de novas pontes de união é algo trabalhoso. Se não se investe nisso dificilmente o casal permanece unido. Por isso é importante ouvir os casais e resgatar o que os une para que juntos possam fazer o relacionamento continuar a existir e não meramente sobreviver.

Abraços,

Caroline

O segundo da distração, um luto eterno: a dor insuportável do desaparecimento de crianças

1 set

A coluna Maternar da Folha de São Paulo mostrou uma matéria super interessante sobre o desaparecimento de crianças. Em Kuala Lumpur, uma organização que luta nessa causa montou um vídeo que mostra como um estranho pode facilmente se aproximar de uma criança se seus pais ou cuidadores não tiverem perto. O vídeo é marcante, pois a abordagem pode de fato ser muito rápida e os desfechos desastrosos.

Ótima causa, ótimo vídeo. Isso porque o luto por crianças desaparecidas é o mais difícil de ser feito pelos pais. A morte de uma criança já é algo devastador, mas existe um ritual de despedida e dor. Um local para chorar a perda, para orar. No caso dos desaparecidos a dúvida é constante, o luto nunca termina. Será que ele vai voltar? Sim, ele vai voltar. O que aconteceu com ele? As fantasias de dor e sofrimento são infindáveis. Despedir-se é impossível. O processo de luto envolve o deixar ir, o desapego do amor investido e a volta do envolvimento no mundo. Como deixar ir alguém que não se sabe para onde e como se foi? Será que se foi?

Nesse ponto vem as medidas de precaução, algumas polêmicas. Nos casos de crianças pequenas existem algumas condutas importantes para além da atenção redobrada dos cuidadores: pulseiras com dados de identificação, busca de passeios em locais mais reservados e seguros, evitar a aglomeração e as chamadas coleiras infantis. Acredito que não é interessante julgar os pais que adotem qualquer uma das medidas. Se eles as adotam é devido ao medo de perderem seus filhos. Isso não é humilhação, mas cuidado. E cada um cuida do jeito que é possível para si.

Certa vez vi a seguinte cena: era véspera de natal e tinha uma mulher no aeroporto sozinha com uma criança de um ano e meio cheia de energia. Ela carregava uma mala enorme, bolsa pessoal, bolsa da criança e a própria criança com a chamada mochila coleira. Ela estava alucinada e enfrentava uma fila de quase 2 horas para embarque, e isso na fila “preferencial” diga-se de passagem. Alguns poderiam dizer que ela não deveria estar sozinha porque estava sobrecarregada. Contudo, cada um tem uma realidade e essa é a dela talvez. Não penso que essa mãe estava descuidada e não queria prestar atenção em seu filho, mas ao contrário, queria protege-lo de um lugar cheio de distrações e estranhos.

Para as crianças mais velhas algumas condutas são interessantes: marcar pontos de encontro, ensinar o telefone dos pais e, principalmente, é importante ensinar a evitar o contato com estranhos, mesmo que esses sejam simpáticos. Principalmente em locais lotados fica a dica: não tire os olhos dos pequenos. E os ouvidos… E a atenção…

 

Veja a campanha no vídeo abaixo, é fundamental:

 

Um abraço,

Caroline

Será mesmo a maternidade a melhor coisa da vida?

4 jun

ImageOntem foi publicada uma coluna na Folha de São Paulo intitulada “Nem todo mundo está feliz com a maternidade” escrita por Cláudia Collucci. De modo interessante, a colunista traz a tona números que apontam para a insatisfação de mulheres em relação à maternidade. Entretanto, por que isso não é visto por aí? Por que as mulheres não falam de suas tristezas em relação ao papel de mãe? E além disso, por que será que os pais não são ouvidos? Parece que essa questão só pode ser vista quando algum bebê é colocado em uma lixeira, como bem ilustra a matéria.

Podemos tentar construir algumas respostas. A maternidade é descrita socialmente como um momento de plenitude, amor, com um ar quase sacralizado. Os coletivos maternos e grupos feministas têm discursos muito fortes, pautados no bem estar do bebê e no mágico momento vivido com a maternidade. A impressão que isso causa é de que é impossível para as famílias falarem de seus sofrimentos e dificuldades em relação aos filhos. Muitas mulheres tem suas vidas totalmente modificadas pela chegada do bebê e nem sempre a mudança é para melhor. É alto o número de casais que se separam após a chegada dos filhos, as mulheres perdem seus empregos e tem dificuldade de contribuir nas despesas familiares. Soma-se a isso o sentimento de perda de identidade, não reconhecimento do corpo e a preocupação de não responder conforme esperado. O discurso para a mãe é seja feliz! Ame seu bebê! É até mais que um discurso, é um imperativo.

Talvez a tristeza de algumas mulheres mostre como nem tudo são rosas e isso ameaça a força dos grupos. Assim, o movimento social de silenciar as insatisfações permeia as mulheres e seus companheiros que tem somente a solidão e frustração como guias. Não seria mais interessante acolher essas famílias do que silenciá-las e atacá-las? Essa pode ser uma forma para evitar que tragédias aconteçam. Que os rompimentos nos vínculos tornem caminhos irreversíveis. É para pensar…

Caroline

O final da lincença maternidade: babá, avós, creche?

7 fev

A maternidade é um mundo completamente novo. Tem mulheres que ficam tão apaixonadas por seus filhos que decidem abrir mão de suas carreiras e passam a se dedicar totalmente aos cuidados com o bebê. Isso pode durar alguns anos ou mesmo para sempre. Essas mães não precisarão se perguntar sobre babá ou creche, mas irão se perguntar sobre qual o melhor momento para a escola.

Contudo, existem várias mulheres que adoram trabalhar e não pretendem ficar no papel de mães em tempo integral. Outras precisam trabalhar para contribuir com o sustento dos filhos. Tudo bem, sem nenhum problema ou julgamento. Não é porque as mulheres desejam retomar seu trabalho que elas não se preocupam com o bebê. Não conheço uma só mulher que não se perguntou sobre os cuidados do bebê no momento de retorno ao trabalho.

As opções mais frequentes são a babá, os familiares ou as creches. Vamos pensar nas características de cada escolha. Não existe caminho melhor ou pior. Existe o que naquele momento é o melhor arranjo possível.

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As babás podem ser ótimas opções para quem tem filhos muito pequenos. Nesses casos, o bebê não irá precisar adaptar sua rotina a rotina de uma instituição escolar. Além disso, ele estará com seu corpo mais desenvolvido contra as doenças infantis ao entrar na escola. As babás podem ser curingas nos casos onde as mães não trabalham tempo integral e podem dividir a tarefa dos cuidados do bebê com elas.

Mas é bastante difícil encontrar uma pessoa qualificada, de confiança e disponível para isso. Alguns pais não suportam a ideia de deixar seus filhos com uma pessoa desconhecida, pois o bebê é indefeso. Ainda acreditam que a babá não é capacitada para prover recursos educacionais. Uma funcionária também é algo oneroso, caro para as famílias e que está se tornando menos comum.

Avós

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Os avós ou familiares podem ser uma boa saída para quem tem dificuldade de confiar seu bebê a uma babá e ainda não querem colocá-lo na creche. Esse arranjo é interessante para aquelas famílias que sentem prazer em cuidar dos netos e ajudarem em sua criação. Mas hoje em dia muitos avós ainda trabalham e são ativos, com uma vida cheia de compromissos pessoais.

Nem todos os avós desejam ajudar na educação dos netos com uma tarefa tão rotineira. Eles curtem mais passeios esporádicos e se dispõem a ajudar nas famosas “emergências”. Além disso, nem sempre tem energia para acompanhar as necessidades de desenvolvimento do bebê e muitos já tem uma saúde comprometida.

Quando se escolhe por um familiar é importante o diálogo prévio com uma série de combinados como, por exemplo, horário e remuneração ou ajuda de custo com os gastos do bebê. Isso ajudará no dia-a-dia para que todos entendam suas tarefas.

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Ótimo recurso para aqueles que não têm familiares ou não acreditam que uma babá pode ser responsável pela educação de uma criança. A vantagem da creche é a segurança. Geralmente é um ambiente vigiado, onde vários profissionais atuam conjuntamente, o que dificulta abusos e maus tratos. Outro ponto interessante é a disponibilidade de horários das instituições para os pais que trabalham.

Quando se opta por um berçário tem que se levar em conta fatores como: localização, recomendação de conhecidos, segurança, higiene e currículo dos profissionais que ali trabalham. Os pais devem-se estar atentos ainda a idade da criança. Muitas escolas aceitam somente crianças acima de 1 ano ou que já se locomovem.

Não existe uma escolha única também. Várias famílias dividem-se em combinações diferentes. O melhor caminho é tentar descobrir o que sua família realmente precisa, tentando atingir o bem estar de todos.

Boa sorte e até o próximo post da série A importância da escola no processo educacional.

Caroline

A importância da escola no processo educacional

6 fev

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Início de ano e a vida começa a voltar ao ritmo normal. É tempo de retomar as atividades de trabalho e período onde as crianças começam a frequentar a escola. Para muitas, será necessário o período de adaptação, principalmente para aquelas que vão à escola pela primeira vez.

Para outras crianças é tempo de desafios: escola nova, amigos novos, um monte de professores e matérias diferentes. Já para os mais jovens é tempo de muito esforço e estudo, pois será necessário pensar em se preparar para o futuro. Lá vem a faculdade e o despertar da vida profissional.

Tudo isso levanta muitas dúvidas nos pais. As mais frequentes são: Como preparar meu filho para o mundo? Que escola devo escolher? O que meu filho precisa para crescer? Qual é a escola que mais atende minhas necessidades?  Babá ou creche? O que meu filho deve saber para a vida?

E o tema ainda mobiliza os filhos: não gosto dessa escola que meu pai escolheu, não tenho amigos, não sei o que cursarei na faculdade, não sou bom o suficiente.

Frente à riqueza do assunto resolvi fazer uma série de posts sobre a importância da escola no processo educacional das crianças e famílias. O primeiro post sairá amanhã tocando na delicada questão da volta da mulher ao trabalho e os cuidados com o bebê.

Espero que gostem,

Caroline

Adeus ano velho

27 dez

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O ano novo vem com votos de esperança e renovação. Todo ano é assim: a promessa de um ano diferente. As crianças não entendem bem essa dinâmica, nada muda muito de um dia para o outro, de modo geral.

Mas a pergunta que deveria surgir é: como eu faço para mudar? O que de fato estou fazendo para ser diferente?

O pulo do gato está em implementar uma ação, não só uma ideia. Pequenos passos podem ajudar, após a determinação de uma meta. Alvo, ação e persistência para adultos e crianças trazem a possibilidade de reais mudanças.

Boa sorte em seus planos de 2014!

Um abraço,

Caroline

Você já ouviu falar na hora do terror?

29 out

Quem tem filhos deve conhecer ou já ouviu falar na hora do terror. Esse é um nome engraçado para aquele famoso horário de final de tarde, quando as crianças ficam irritadas e inquietas.

Alternativas para pensar a hora mais cansativa do dia

Alternativas para pensar a hora mais cansativa do dia

Esse período geralmente é um momento difícil para os pais e cuidadores da criança e as brigas costumam acontecer.
O problema é que todos estão cansados e a possibilidade de negociação fica mais escassa.
Uma boa alternativa é usar recursos lúdicos para que o momento tenso possa se tornar mais divertido. Algumas mães tem saídas interessantes:
– propor um passeio curto de carro ou a pé. Os estímulos externos despertam curiosidade nas crianças e relaxamento aos adultos;
– atividades de desenho, pintura, argila. A fluidez do materiais e mobilidade permitem a livre expressão.
– banho, água, piscina. Ótimo horário para natação ou aquele banhinho sem pressa. Relaxamento das crianças que trará paz aos pais durante a noite.
Crianças mais calmas e felizes, sem erro.
Pais mais disponíveis e atividades agradáveis para ambos é uma estratégia para evitar confrontos desnecessários e trazer mais harmonia,

Um abraço,

Caroline

Queria tanto um parto normal, mas eu não consegui…

28 ago

É impressionante como é comum ouvir essa frase. Não só no consultório, mas no shopping, no cabeleireiro, nas festas, no mundo social em geral. “Eu queria tanto um parto normal, mas não deu”. Os motivos são os mais bizarros e injustificáveis do ponto de vista da saúde pública, isso é fato: meu bebê era grande demais, tinha circular de cordão, eu não dilatei, entre outros.

O desejo por um Parto Normal pode virar um fracasso para a mulher

  O desejo por um Parto Normal pode virar um fracasso para a mulher

 

Obviamente não somos ingênuos e sabemos da indústria da cesárea no país. Observamos a postura adotada por alguns médicos que olham apenas para sua conveniência, praticidade e bolso. Entretanto, o que não olhamos ou não queremos saber é para a tristeza das mulheres que dizem isso ou o sentimento gerado por essa “não conquista”.
 

O discurso do empoderamento feminino é bárbaro. Aponta as possibilidades de fortalecimento, autonomia e liberdade de escolhas. Mas existe um efeito colateral: a frustração e o fracasso. “Eu não consegui um parto normal” pode ser entendido por elas como “Eu não fui capaz, eu não consegui”. E isso nem sempre é verdade. No parto intercorrências podem surgir e nem sempre isso depende da mulher.

A sensação de fracasso gerada no pós-parto pode ser tão intensa que chega a atrapalhar a vinculação da mulher com seu bebê, inclusive gerando um sentimento de incapacidade materno. Um exemplo clássico é a dificuldade posterior com a amamentação. Culpabilizar a mulher por um suposto insucesso é perigoso!

Uma mulher que não teve parto normal não é menos mãe ou menos mulher. O parto é uma etapa da maternidade e não reflexo definitivo dela. Vamos ouvir mais e julgar menos? Afinal, a verdadeira humanização, a meu ver, é a particularização do olhar.
Abraços!
Caroline

Mielomenigocele: cuidados e perspectivas

19 jun

Olá. Esse post apresenta a última parte da entrevista com Julia, mãe da lindinha Clara. Vai falar sobre o parto, os cuidados físicos e psíquicos e as perspectivas de futuro. Espero que gostem!

 

Caroline – Como foi o parto?

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Júlia – Super tranquilo. Muitos médicos conhecidos, minha família, meu marido. Ninguém tava nervoso, conversamos sobre amenidades. Minha família pôde ver na encubadora. Ela nasceu com 31 semanas porque minha cicatriz uterina da cirurgia estava rompendo. Não foi possível  segurar mais. Ela nasceu com 1,575kg. Mas nasceu bem, não usou aparelho para respirar.

 

 

Caroline – Como foram os primeiros dias após o nascimento da Clara?

Júlia – Esse foi o pior momento, quando ela foi para UTI neonatal. Foi triste vê-la quando ela nasceu. Muito magrinha, com as perninhas tortas. Cheia de acessos. Toquinha de gaze, pelada. Imagem chocante. Foi bom que ninguém mais viu, que não podiam ir visitas. Na própria UTI ela usou tala, a perninha foi voltando. Quando veio para casa já tava mais gordinha, tinha quase um mês.

A UTI horrível. É ruim ir embora e deixar o seu filho… Eu passava o dia todo lá. Só saia após a troca de plantão. Queria falar: gente, essa é minha filha, cuida dela. Eu ficava lá pelo amor, pela vontade de estar com ela.

 

Caroline – Você percebeu efeitos da sua presença na recuperação dela?

 

Júlia – Sim, desde o canguru. Ela adorava. Meu jeito ajudou, sou bem otimista. Sempre acho que as coisas vão dar certo. Minha família me apoiava 100%.

Na UTI tinha uma equipe bacana. Tinha uma psicóloga que passava todo dia. Ela conversava, fazia reuniões. Também tinha as outras mães. Vi que não era só comigo que isso tinha acontecido. Comecei a pensar que meu problema não é tão grande, tem milhares de outros problemas no mundo. Ao mesmo tempo que é muito ruim estar lá, também é muito bom ver que não é só com você.

 

Caroline – Que cuidados a Clara precisa hoje? Como vocês lidam com a mielo?

 

Júlia – O principal cuidado é com a locomoção. A Clara é estimulada desde pequena. Faz natação, fisioterapia, hidroterapia. Tomo cuidado porque ela não pode engordar. Sua saúde é ótima, ela é forte.

Um ponto que sempre me perguntam é se ela vai andar ou não. Fico preocupada com isso. Mas não é o mais importante. Ela tem o tempo dela e tudo que está ao meu alcance está sendo feito. Dizem que 95% das crianças, com a mesma lesão que a Clara tem, não vão andar. Mas tento junto com os médicos me focar nos 5%.

Optei por um tratamento domiciliar de fisioterapia várias vezes por semana. Mas percebo que há várias batalhas que não só a doença em si. Um exemplo é a falta de acessibilidade para ela. Rampas de acesso, banheiros públicos adequados. Vou brigar pelos direitos dela, e apoiá-la sempre para que seu acesso seja garantido.

 

Caroline – Nesse ponto as redes sociais são importantes?

Júlia – Penso que é importante ela ter contato com outras crianças que também tem dificuldades. É importante trocar experiências. Fico pensando: cadê as crianças com necessidades especiais? Como as crianças vão lidar com ela?

Faço parte de redes sociais que discutem a mielomeningocele e a cirurgia a céu aberto. Troco com as outras mães minhas dúvidas e as vivências e as delas também.

 

Caroline – E como está sua vida depois que ela nasceu?

 

Júlia – Eu resolvi parar de trabalhar porque quero acompanhar ela. Quero ver ela na fisio, nas atividades. Estimular. Não vou deixar com os outros se eu posso estar com ela. Sou muito apegada e ainda não consigo deixá-la. Deixo no horário que ela está dormindo. É difícil sair. Ainda estou no processo. É muito prazeroso ver a evolução dela. Ver que nosso esforço está valendo a pena.

Acho que minha vida mudou porque tive um bebê, mas não pelo fato dela ter mielo. Um bebê muda a vida. Penso em ter mais filhos, acho muito importante ter irmãos. Irmãos são mais importantes do que estudar na melhor escola. Irmão é um amigo seu para a vida toda e eu quero que ela tenha isso.

 

Caroline – Que mensagem você deixaria para as mulheres que recebem esse diagnóstico?

 

Júlia – Diria para saírem do Google e conversarem com o médico. Diria para elas buscarem informações atualizadas. Hoje as crianças tem qualidade de vida, mesmo as que não são operadas intra-utero. É algo que vale a pena. É um mundo novo que você descobre. Nunca imaginei que tinha tanta gente com tantos problemas. Mas não é o fim do mundo.

Hoje muita gente acha um absurdo ter um bebê doente. Até falam isso para mim, mas não me incomodo. A pessoa não sabe o que está falando. É muito fácil falar quando não é com você. A pessoa pode ter um filho que não tem nada e amanhã ou depois algo pode acontecer. Quando você escolheu ter um filho você tem que estar disposta a tudo. Câncer. Sabe-se lá. Tem que aceitar o que vier. Vamos dar a melhor qualidade de vida que ela poder ter.

 

Agradeço muito a participação da Júlia e da Clara no blog. Espero que ela possa ajudar a outras mulheres e famílias em um momento delicado.

Algumas redes e blogs de mães e famílias portadoras de mielo são uma boa fonte de troca e informação, entre elas o blog Vencendo a Mielo e a rede do Facebook Mielomeningocele (troca de experiências)

Obrigada!

Caroline