Arquivo | outubro, 2011

É possível pensar em uma Psicanálise com bebês?

26 out

Aposto que a idéia de psicanálise com bebês soa como algo estranho para muita gente. Afinal, como é possível usar uma prática que trabalha com a linguagem em recém-nascidos? Pois não somente é possível como é de muito auxílio na prevenção do sofrimento infantil. Na minha experiência em berçário, no atendimento a pais e bebês internados pude comprovar a eficácia da técnica e gostaria de compartilhá-la com vocês. O caso clínico ilustra bem a idéia do cuidado infantil.

Uma das minhas funções no berçário era “conversar com os bebês”. Françoise Dolto, psicanalista francesa, foi uma das primeiras a apostar nesse tipo de intervenção. A equipe achava essa prática estranha, mas não se opunha a ela. Um dia, ao entrar no berçário, vi uma pequena bebê que chamarei aqui de Paula. Ela tinha apenas 15 dias de vida e havia nascido com uma grave hidrocefalia, além de outras complicações. Seus pais moravam em outra cidade e não vinham visitá-la. A equipe de saúde não acreditava na sua recuperação e isso pode ser “dito” de várias maneiras: isolamento de sua incubadora para um canto do berçário, distanciamento da equipe, pouca comunicação com os pais etc.

Ao me aproximar dela uma colega da enfermagem me disse: com essa nem adianta conversar. Ela não irá resistir. Não pude deixar de pensar: que triste destino… Logo me sentei ao seu lado e começamos nossa conversa. Ela consistia da estória do bebê, da apresentação do hospital, nomear as pessoas que cuidavam dela, explicar a ela quem ela era e o que estava fazendo lá. Aproximar os ditos dos pais também é muito importante nesse trabalho. Os pais fazem um ninho simbólico, com palavras, desejos e lugares para o bebê. Acredito que essa rede de saberes e de palavras fornece sustentação ao surgimento de um sujeito.

De modo interessante, Paula foi melhorando. Sua mãe passou a visitá-la e reinvestir na criança, que havia sido desenganada. Aos poucos, ela podia interagir: sorrir, balbuciar, olhar… Nesse momento, a equipe também passou a reinvestir na bebê e acreditar que seria possível mudar seu destino. O final? Ela sobreviveu. Claro, com condições físicas difíceis. Não soube mais dela após a alta hospitalar, mas acho que ela teve uma chance de engatar na vida. A Psicanálise mostra como a palavra cura e acalenta. Os bebês precisam dela para se estruturar psiquicamente. Conversar com eles é muito importante. E algo eles entendem, viu?

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Mais dinheiro para estádios de futebol! Cadê o esforço público em reduzir a mortalidade materna?

20 out

 

 

Baixa qualidade da assistência na gravidez

A baixa qualidade da assistência à gravidez não reduz a mortalidade materna no Brasil

Um recente estudo publicado na conceituada revista The Lancet apontou que o Brasil não conseguirá cumprir com as metas estabelecidas para a redução da mortalidade materna no país. Alguns fatores são apontados para o descumprimento, entre eles o excesso de cesarianas.

Entretanto, acredito que a vontade política faz toda a diferença. É assustador ver o montante de dinheiro investido em obras eleitoreiras, como os estádios da Copa de 2014. Somente a obra do “novo Maracanã” custará algo em torno de R$1 bilhão de reais. Imaginem como esse dinheiro poderia ajudar na construção de hospitais, casas de parto e melhorias na equipe e na estrutura de atendimento à mulher e aos bebês! Pena que isso não dê votos nas urnas…

Se o Governo priorizasse a atenção à saúde materna infantil talvez as metas de redução pudessem ser atingidas até 2015. Triste inversão de valores. Cabe a nós questionar essas prioridades. Vocês podem acessar uma matéria sobre o tema no site da BBC, o link segue abaixo. Vamos reivindicar o direito universal à saúde de qualidade!

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/09/110920_mortalidade_brasil_pu.shtml

A banalização da cesariana: todo mundo faz, todo mundo quer

14 out

O número de partos cesáreos realizado no Brasil cresce assustadoramente. Entretanto, as pessoas recorrem à cesárea cada vez mais baseadas em argumentos que não se sustentam cientificamente. Traduzindo: nem sempre o que nos contam são verdades. Um parto cesáreo mal indicado pode complicar muito o desfecho do nascimento, inclusive levando a sofrimento e danos físicos e psicológicos.

Mas por que se fazem mais e mais cesáreas? Dois movimentos ajudam a explicar: 1) o movimento médico, que coloca a cesariana como padrão de atendimento de qualidade; 2) as mulheres, que cada vez mais acreditam que um parto cesáreo não envolve dor. O agendamento da cesariana é tão comum, que hoje as mulheres marcam o parto, unha e cabeleireiro para estarem bonitas na maternidade.

Não se trata de ser contra a medicina: ela salva vidas e a cesariana é útil em muitos casos. Trata-se de questionar o abuso de uma gama de intervenções que nem sempre são benéficas para mãe ou o bebê, como a episiotomia (mais conhecida como corte do períneo), por exemplo.

O documentário The Business of Being Born explora a medicalização do parto e aponta a importância de informações seguras para a mulher decidir sobre seu parto. Afinal, como defendem as mulheres do documentário, quem dá a luz ao bebê é a mulher e não o médico ou a parteira. Eles estão lá para auxiliar na tarefa do nascimento. O vídeo segue abaixo. Aproveitem!

Grávidas e seus temores: o medo de perder o bebê

7 out

O medo de perder o bebê deve ser tratado

O medo de perder o bebê talvez seja a maior ansiedade das mulheres manifestada abertamente na gravidez.  Disso não se pode falar sem receio. E ao falar, quase que em uma confissão, quantas outras mulheres apontam que sentiram o mesmo.

Em algumas culturas, só se anuncia a gravidez após o terceiro mês de gestação. Isso porque o chamado “período de risco” já passou. De fato, é no primeiro trimestre da gestação que acontecem mais perdas. O período de desenvolvimento embrionário é determinante e as condições maternas serão postas à prova. Mas sempre que escuto uma mulher dizendo sobre esse temor me pergunto: de quê ela está falando? É um medo característico do processo gestacional ou é algo mais complexo?

Para algumas mulheres isso pode se tornar um sintoma. Desse modo, elas passam a paralisar suas vidas em função da conservação da gestação. Fazem repousos, evitam o sexo, param de trabalhar. Essas atitudes devem ser observadas por ela e pela família. Em alguns casos, a ajuda psicológica é necessária para fortalecer essa mulher e ajudá-la na construção de um novo lugar no mundo: o de uma futura mãe.