É possível pensar em uma Psicanálise com bebês?

26 out

Aposto que a idéia de psicanálise com bebês soa como algo estranho para muita gente. Afinal, como é possível usar uma prática que trabalha com a linguagem em recém-nascidos? Pois não somente é possível como é de muito auxílio na prevenção do sofrimento infantil. Na minha experiência em berçário, no atendimento a pais e bebês internados pude comprovar a eficácia da técnica e gostaria de compartilhá-la com vocês. O caso clínico ilustra bem a idéia do cuidado infantil.

Uma das minhas funções no berçário era “conversar com os bebês”. Françoise Dolto, psicanalista francesa, foi uma das primeiras a apostar nesse tipo de intervenção. A equipe achava essa prática estranha, mas não se opunha a ela. Um dia, ao entrar no berçário, vi uma pequena bebê que chamarei aqui de Paula. Ela tinha apenas 15 dias de vida e havia nascido com uma grave hidrocefalia, além de outras complicações. Seus pais moravam em outra cidade e não vinham visitá-la. A equipe de saúde não acreditava na sua recuperação e isso pode ser “dito” de várias maneiras: isolamento de sua incubadora para um canto do berçário, distanciamento da equipe, pouca comunicação com os pais etc.

Ao me aproximar dela uma colega da enfermagem me disse: com essa nem adianta conversar. Ela não irá resistir. Não pude deixar de pensar: que triste destino… Logo me sentei ao seu lado e começamos nossa conversa. Ela consistia da estória do bebê, da apresentação do hospital, nomear as pessoas que cuidavam dela, explicar a ela quem ela era e o que estava fazendo lá. Aproximar os ditos dos pais também é muito importante nesse trabalho. Os pais fazem um ninho simbólico, com palavras, desejos e lugares para o bebê. Acredito que essa rede de saberes e de palavras fornece sustentação ao surgimento de um sujeito.

De modo interessante, Paula foi melhorando. Sua mãe passou a visitá-la e reinvestir na criança, que havia sido desenganada. Aos poucos, ela podia interagir: sorrir, balbuciar, olhar… Nesse momento, a equipe também passou a reinvestir na bebê e acreditar que seria possível mudar seu destino. O final? Ela sobreviveu. Claro, com condições físicas difíceis. Não soube mais dela após a alta hospitalar, mas acho que ela teve uma chance de engatar na vida. A Psicanálise mostra como a palavra cura e acalenta. Os bebês precisam dela para se estruturar psiquicamente. Conversar com eles é muito importante. E algo eles entendem, viu?

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