Arquivo | março, 2016

Uma mãe pode morrer?

28 mar

Assistindo ao horror dos atentados no aeroporto de Bruxelas uma cena me chamou a atenção:  em meio a fumaça e ao caos ouvia-se a voz de uma criança pequena “mãe cadê você? O que está acontecendo?”. Por um instante pensei no pavor dessa criança, buscando a referência materna para lhe acalmar e situar. Logo após o silêncio. Aquele silêncio arrebatador de vazio, de uma resposta que não vem…

A resposta não vem em palavras. A voz falta e em sua falta é que aparece a verdadeira resposta, a ausência. Por pior que seja a catástrofe, a guerra, o conflito, a criança que tem sua mãe por perto geralmente se reorganiza mais facilmente. Isso porque a mãe representa a mediação da criança com o mundo. Em momentos difíceis a mãe funciona como porta-voz da criança, traduz o mundo externo, ajuda seu filho a entrar na vida.

mae morrer

A mãe atrai o olhar do filho ao que ela vê e o ajuda a compreender como o mundo funciona

 

É claro que o título desse post mostra uma ingenuidade provocativa. Na verdade, indica um certo desejo inatingível de proteger os filhos, porém em um tema onde não temos  controle algum. A dor das crianças diante da perda materna é algo que produz abalos, muitas vezes irreparáveis. Ao analista cabe fazer falar, fazer sofrer, fazer algo com a falta. É claro que outras pessoas podem entrar, fazer laços com a criança ou aprofundar ainda mais o vínculo já existente. Mas cada relação é única.

Sabemos que nem todos os vínculos mãe e filho são bons. Para alguns, a distância é um alívio, o fim de um sofrimento de uma dura relação. Entretanto, esse laço nunca é banal, pois marca o primeiro encontro do bebê com a comunidade humana.

O mais curioso é que essa criança não tem idade. Perder a mãe retoma, reencontra a criança que cada adulto tem dentro de si. Essa criança aparece com força e se enluta com a perda. O que restará ao final do trabalho de luto é uma resposta que cada um vai dar, é algo particular. De modo geral, pode-se lembrar de momentos importantes, encontrar coisas que deveriam ter sido ditas, lamentar os erros… Nesse trabalho de ressignificação, por vezes se descobre uma outra mãe, suas facetas nunca vistas, características diferentes. Se ouve dos amigos “ela te amava”, “ela odiava as aulas de natação”, “ela poderia ter feito diferente”. Separa-se a mãe da mulher. Minha mãe era uma mulher, um ser humano, uma mortal… A mulher morre, mas a mãe continua viva em nossas memórias.

Acredito que teremos sorte quando pudermos sentir não raiva, ou ódio, arrependimento ou dor sem fim, mas apenas saudades. Saudades do colo, do cheiro, da proteção, de um conselho, um olhar ou somente de uma voz que responde “estou aqui querido”…

Abraços,

Caroline

 

 

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