Mielomenigocele: cuidados e perspectivas

19 jun

Olá. Esse post apresenta a última parte da entrevista com Julia, mãe da lindinha Clara. Vai falar sobre o parto, os cuidados físicos e psíquicos e as perspectivas de futuro. Espero que gostem!

 

Caroline – Como foi o parto?

julia2

Júlia – Super tranquilo. Muitos médicos conhecidos, minha família, meu marido. Ninguém tava nervoso, conversamos sobre amenidades. Minha família pôde ver na encubadora. Ela nasceu com 31 semanas porque minha cicatriz uterina da cirurgia estava rompendo. Não foi possível  segurar mais. Ela nasceu com 1,575kg. Mas nasceu bem, não usou aparelho para respirar.

 

 

Caroline – Como foram os primeiros dias após o nascimento da Clara?

Júlia – Esse foi o pior momento, quando ela foi para UTI neonatal. Foi triste vê-la quando ela nasceu. Muito magrinha, com as perninhas tortas. Cheia de acessos. Toquinha de gaze, pelada. Imagem chocante. Foi bom que ninguém mais viu, que não podiam ir visitas. Na própria UTI ela usou tala, a perninha foi voltando. Quando veio para casa já tava mais gordinha, tinha quase um mês.

A UTI horrível. É ruim ir embora e deixar o seu filho… Eu passava o dia todo lá. Só saia após a troca de plantão. Queria falar: gente, essa é minha filha, cuida dela. Eu ficava lá pelo amor, pela vontade de estar com ela.

 

Caroline – Você percebeu efeitos da sua presença na recuperação dela?

 

Júlia – Sim, desde o canguru. Ela adorava. Meu jeito ajudou, sou bem otimista. Sempre acho que as coisas vão dar certo. Minha família me apoiava 100%.

Na UTI tinha uma equipe bacana. Tinha uma psicóloga que passava todo dia. Ela conversava, fazia reuniões. Também tinha as outras mães. Vi que não era só comigo que isso tinha acontecido. Comecei a pensar que meu problema não é tão grande, tem milhares de outros problemas no mundo. Ao mesmo tempo que é muito ruim estar lá, também é muito bom ver que não é só com você.

 

Caroline – Que cuidados a Clara precisa hoje? Como vocês lidam com a mielo?

 

Júlia – O principal cuidado é com a locomoção. A Clara é estimulada desde pequena. Faz natação, fisioterapia, hidroterapia. Tomo cuidado porque ela não pode engordar. Sua saúde é ótima, ela é forte.

Um ponto que sempre me perguntam é se ela vai andar ou não. Fico preocupada com isso. Mas não é o mais importante. Ela tem o tempo dela e tudo que está ao meu alcance está sendo feito. Dizem que 95% das crianças, com a mesma lesão que a Clara tem, não vão andar. Mas tento junto com os médicos me focar nos 5%.

Optei por um tratamento domiciliar de fisioterapia várias vezes por semana. Mas percebo que há várias batalhas que não só a doença em si. Um exemplo é a falta de acessibilidade para ela. Rampas de acesso, banheiros públicos adequados. Vou brigar pelos direitos dela, e apoiá-la sempre para que seu acesso seja garantido.

 

Caroline – Nesse ponto as redes sociais são importantes?

Júlia – Penso que é importante ela ter contato com outras crianças que também tem dificuldades. É importante trocar experiências. Fico pensando: cadê as crianças com necessidades especiais? Como as crianças vão lidar com ela?

Faço parte de redes sociais que discutem a mielomeningocele e a cirurgia a céu aberto. Troco com as outras mães minhas dúvidas e as vivências e as delas também.

 

Caroline – E como está sua vida depois que ela nasceu?

 

Júlia – Eu resolvi parar de trabalhar porque quero acompanhar ela. Quero ver ela na fisio, nas atividades. Estimular. Não vou deixar com os outros se eu posso estar com ela. Sou muito apegada e ainda não consigo deixá-la. Deixo no horário que ela está dormindo. É difícil sair. Ainda estou no processo. É muito prazeroso ver a evolução dela. Ver que nosso esforço está valendo a pena.

Acho que minha vida mudou porque tive um bebê, mas não pelo fato dela ter mielo. Um bebê muda a vida. Penso em ter mais filhos, acho muito importante ter irmãos. Irmãos são mais importantes do que estudar na melhor escola. Irmão é um amigo seu para a vida toda e eu quero que ela tenha isso.

 

Caroline – Que mensagem você deixaria para as mulheres que recebem esse diagnóstico?

 

Júlia – Diria para saírem do Google e conversarem com o médico. Diria para elas buscarem informações atualizadas. Hoje as crianças tem qualidade de vida, mesmo as que não são operadas intra-utero. É algo que vale a pena. É um mundo novo que você descobre. Nunca imaginei que tinha tanta gente com tantos problemas. Mas não é o fim do mundo.

Hoje muita gente acha um absurdo ter um bebê doente. Até falam isso para mim, mas não me incomodo. A pessoa não sabe o que está falando. É muito fácil falar quando não é com você. A pessoa pode ter um filho que não tem nada e amanhã ou depois algo pode acontecer. Quando você escolheu ter um filho você tem que estar disposta a tudo. Câncer. Sabe-se lá. Tem que aceitar o que vier. Vamos dar a melhor qualidade de vida que ela poder ter.

 

Agradeço muito a participação da Júlia e da Clara no blog. Espero que ela possa ajudar a outras mulheres e famílias em um momento delicado.

Algumas redes e blogs de mães e famílias portadoras de mielo são uma boa fonte de troca e informação, entre elas o blog Vencendo a Mielo e a rede do Facebook Mielomeningocele (troca de experiências)

Obrigada!

Caroline

Mielomeningocele: diagnóstico e decisão sobre manter a gestação

12 jun

Nessa primeira parte da entrevista vou apresentar nossas personagens, Júlia e a fofíssima Clara. Os assuntos abordados aqui foram o diagnóstico da mielomeningocele e os aspectos emocionais dessa descoberta. A possibilidade da cirurgia intra-útero também é discutida. Aproveitem!

Julia1

A maternidade de uma bebê linda e esperta. É possível olhar para o bebê para além da mielo

Júlia era uma mulher que trabalhava muito, de vida agitada que resolve, junto com seu marido, engravidar. Logo no primeiro mês, meio sem esperar, a notícia da gravidez chega. Isso os pegou de surpresa pela rapidez, mas Júlia e Márcio ficam felizes pela notícia que mudará para sempre suas vidas. A maternidade e a paternidade serão novos papéis a serem aprendidos e vivenciados.

Caroline – Como foi o momento do diagnóstico?

Júlia – O diagnóstico foi feito durante o segundo exame de ultrassom, com 12 semanas. O primeiro ultrassom com 6 semanas foi ok, nada de errado. Estava um pouquinho angustiada para esse segundo exame. Tinha planejado viajar com toda a família para fazer o enxoval do bebê e queria saber o sexo para acertar nas compras. Já sabia que era uma menina porque tinha feito o exame de sangue, mas queria ter certeza. Marquei a viagem para o dia seguinte ao exame. Queria ir tranquila.
Durante o exame soube o sexo, mas eu e meu marido percebemos um clima de tensão. A médica não conseguia tirar os olhos do monitor, fazendo uma expressão preocupada. Comexei a achar estranho e ficar preocupada. Perguntei para médica se estava tudo bem. Ela respondei que o pezinho do bebê estava torto e que iria conversar após o exame.
Ao final do exame a médica logo deu o resultado do exame: mielomeningocele. Eu nunca tinha ouvido falar em mielo. A médica explicou de um jeito bem gracinha. Que poderia ter vários problemas. A doutora disse para eu não me preocupar e ligou para minha médica. Como o exame foi feito em um centro de especialidades em medicina fetal, ela conseguiu um encaixe imediatamente. Tudo foi imediato. Em dez minutos minha obstetra já sabia do problema e ela foi encaminhada a um médico especialista.

Caroline – E como você se sentiu nesse momento?
Júlia – Foi estranho sair chorando e ver todas aquelas mães me olhando na sala de espera. Horrível. Nem eu mesma sabia o que estava acontecendo. Não tive tempo para pensar em nada. Fui passando pelos médicos, fazendo exames… Desmarquei a viagem e só fui começar a pensar nisso a noite. Aí que consultei o Dr. Google, mas ele não é um bom amigo. Só vi coisas horríveis, as dificuldades, a realidade da doença…
Não vi informações sobre as cirurgias e nenhum tipo de tratamento. As informações não são confiáveis. Os médicos me disseram que tinha a cirurgia, que eu iria operar. Mas nem todos os médicos no país sabem da cirurgia e só aconselham o aborto. Muitos acham que ainda é um tratamento experimental. Tive sorte

Caroline – Houve alguma conversa sobre a possibilidade de aborto?

Júlia – No mesmo dia que soube Já dei a notícia que ia operar para todas as pessoas. Meus familiares souberam na hora. Nunca fiquei na dúvida sobre abortar ou não. Acho que não tive dúvidas porque foi super amparada pela equipe e a cirurgia foi posta como o caminho a ser seguido.
A possibilidade de abortar nem sequer passou pela minha cabeça ou do meu marido. Não decidi isso por motivos religiosos. Foquei na cirurgia e não considerei uma segunda opção.

Caroline – Como foi a cirurgia?

Júlia – Foi estranha a reação dos outros. Todos choravam quando eu contava o que iria passar. Parecia algo tão enorme tirar a criança da barriga e operá-la. Achavam um absurdo. Pior do que eu mesma. A ficha só caiu na sala de operação com o anestesista. Comecei a chorar, percebi que aquilo era realidade. Tinha o risco dela falecer.
Operei no dia certinho com 26 semanas. O principal objetivo da cirurgia era evitar a hidrocefalia. Mas isso não iria garantir se ela iria andar. Mesmo assim decidi fazer. Percebi que existem coisas mais difíceis do que usar cadeira de rodas. Isso não é algo que a levará a uma emergência, precisando de cirurgias frequentes.
Essa é uma cirurgia grande e precisa do apoio de toda a família. Meu cirurgião reforçava isso o tempo todo e tem razão. São necessários repouso e apoio familiar. Depois da cirurgia que eu vi como isso era muito difícil, pesado. Sempre fui muito otimista, mas aí caiu a ficha.
O pós-operatório é doloroso, senti um pouco de contração. Quando acaba a anestesia e eles introduzem medicação fica mais difícil. Vômitos, o desconforto da UTI. Precisei de uma semana no hospital em repouso total.

É impressionante como uma gestação pode mudar a vida da família e da mulher. O desejo por Clara foi uma luta. Uma luta pelo melhor possível, com os recursos disponíveis. O próximo post apresentará a segunda parte da entrevista, contando sobre o parto e a nova rotina com a chegada do bebê.

Até lá!

Caroline

Conversando sobre a maternidade e a mielomeningocele: vamos dar voz as mães?

6 jun

É com muito prazer que hoje trago a vocês a história de Julia e de Clara no blog. Esse relato faz parte da série de entrevistas e, pela primeira vez, dá voz a uma mãe. Aliás, uma mulher muito guerreira e sem medo nos dá um depoimento emocionado sobre a experiência de ter um bebê com mielomenigocele.

Inicialmente, variei um post introdutório sobre o tema para depois compartilhar com vocês essa entrevista tão rica, que explorará temas como: diagnóstico pré-natal, a decisão por manter a gestação, a cirurgia intra-útero e a batalha diária de uma menina muito fofinha, que pode ter um lindo futuro pela frente. Não tenho a pretensão de um detalhamento médico, mas de fornecer informações gerais para que entendam o quadro em questão. Espero que gostem!

Mielomeningocele: O que é isso? 

mielo2

A mielomeningocele é apresentada na coluna do segundo bebê

A mielomeningocele, também conhecida por espinha bífida, é caracterizada por uma malformação congênita  no tubo neural. Ela pode atingir desde uma área pequena até uma ampla parte da coluna do bebê. Geralmente, está associada a outros problemas de saúde, como a hidrocefalia, problemas no sistema urinário e paralisia motora de membros inferiores.

Atualmente, com o avanço nos meios de diagnóstico pré-natal, pode-se detectar a doença durante um exame como a ultrassonografia morfológica. Na maioria das vezes, outros exames são solicitados para a confirmação do diagnóstico, como a amniocentese, onde se punciona e analisa o líquido amniótico para uma análise genética do bebê.

Apesar de não estar previsto em Lei, o aborto pode ser autorizado por um juiz caso solicitado pelo médico e a gestante. Algumas famílias optam pelo aborto, alegando não poderem criar uma criança com tais dificuldades motoras e intelectuais. Outros motivos pessoais e médicos podem ser alegados na solicitação.

mieloUS

A ultrassonografia já pode mostrar a malformação

Em alternativa a isso, novos métodos cirúrgicos estão chegando, após anos de pesquisa cientifica. A cirurgia fetal intra-uterina para correção da lesão vem sendo implementada em alguns centros médicos do país, com resultados promissores. Não se fala em cura total da doença, mas em uma melhora dos potenciais quadros associados à lesão, como, por exemplo, evitar a hidrocefalia e danos no sistema excretor. Contudo, esse recurso não está disponível amplamente à população e é pouco conhecido, inclusive, entre médicos ginecologistas e obstetras. Esse é um campo novo e ouvir o relato de quem vivenciou a experiência poderá ajudar outras mulheres que desejam lutar por uma nova opção terapêutica para seus bebês.

O próximo post será sobre a primeira parte da entrevista. Aguardem!

 

 

Fonte das Imagens:

A primeira imagem foi retirada do site do Centro de Cuidados Fetais de Cincinnati: http://www.cincinnatichildrens.org/service/f/fetal-care/conditions/mmc/default/

A imagem de ultrassom foi retirada do site: http://voices.yahoo.com/myelomeningocele-symptoms-causes-treatments-5866174.html

Vale a pena fazer cursos para gestantes em maternidades?

14 mar

Olá leitoras,

curso de gestantes
Eu resolvi fazer esse post porque já perdi a conta de quantas vezes ouvi a pergunta: “vale a pena fazer esses cursos para gestantes?”. Em primeiro lugar quero deixar claro que essa é uma opinião pessoal. Tem pessoas que amam e acham super válido, enquanto outras que acham banal. Eu penso que depende muito dos seus objetivos e da instituição ou local em que você pretende fazer.
Bom, vamos lá. Muitas maternidades oferecem hoje o chamado “Curso de gestantes”. Nos hospitais privados, eles geralmente acontecem durante um dia inteiro aos finais de semana e são pagos. Geralmente são ministrados por uma enfermeira obstétrica, com auxílio ou não de outros profissionais (médicos, psicólogos). A carga horária divide-se em temas como: tipos de parto, tipos de anestesias, aspectos da vida emocional das gestantes, exibição das instalações da maternidade, regras gerais da instituição, exames pós-parto, cuidados de saúde da gestante, lista do que levar e os primeiros cuidados com o recém-nascido.

Os contras: De modo geral, as gestantes saem de lá exaustas. São cansativos, com muitos casais e pouca abertura para questões mais particulares. A cena do banho com o bebê de borracha é muito estranho. Quem já cuidou de um bebê sabe como é impossível ele ficar estático no banho. É uma questão de treino e adaptação e não de um manual técnico. A idéia do parto normal é amplamente divulgada, mas na prática, pouco acontece. Os homens ficam deslocados. Acho que o conteúdo poderia ser repensado e aproveitar melhor a presença dos casais.

Os prós: Conhecer as regras da instituição é muito bom. Inclusive, sobre taxas de acompanhante e coisas do gênero que são proibidas. Os nomes são variados, até mesmo taxa do avental hospitalar. Saber para onde se dirigir na hora do parto e saber a “cara” do lugar torna o ambiente familiar. Conhecer os benefícios do hospital sobre quais exames ele oferece ao recém-nascido e a mãe, inclusive os cobertos em lei pelo SUS ou convênios. Ter algum contato prévio com a equipe de saúde é muito vantajoso.

Uma dica imperdível: no cafezinho você pode conversar nos bastidores sobre a real possibilidade do tipo de parto que você deseja e sobre as características do seu médico e a equipe!

Discutirei outros tipos de cursos nos próximos posts, ok?

Um abraço e boa sorte!
Caroline

Qual é o tempo certo para fazer o desmame do ponto de vista psicológico?

23 jan
desmame

Devemos olhar sempre cada caso em particular

Esse post nasceu de um email enviado pela Eliane, autora do blog mãe de moleque. A questão dela é muito relevante: por que algumas mães continuam a amamentação por longos períodos? Às vezes, até por anos? Qual o ponto de vista psicológico envolvido nisso?

Bom, antes de começar, gostaria de dizer que a amamentação é muito importante para mãe e para o bebê. É preconizada pelo Ministério da Saúde e deve ser estimulada. Existem grupos que defendem a amamentação estendida e por livre demanda, ou seja, dar o seio quando a criança quiser. Entretanto, existem questões psíquicas que devem ser consideradas.

O desmame pode ocorrer naturalmente a partir dos seis meses. Algumas crianças abandonam por conta própria o leite materno e se interessam por outros alimentos. Elas têm iniciativa e as mães podem até estranhar a precocidade do desmame. Isso é reflexo da capacidade da criança de ir fazendo uma separação gradativa da mãe em direção ao mundo. Não é algo preocupante a principio. É apenas um movimento da criança e deve ser respeitado. Pode ser considerado um ponto importante frente à autonomia e o desenvolvimento infantil.

Em outros casos, a mãe quer iniciar o desmame e a criança não aceita. Ela quer o seio o tempo todo, mesmo com mais de um ano de idade. Nesses casos, devem-se estabelecer limites e tentar entender o que a criança quer ao solicitar o seio. Pode ser que ela queira carinho, proximidade ou amor e isso não precisa ser mediado unicamente pelo seio. A criança e sua mãe terão que aprender novas formas de afeto que não somente a amamentação. Outras crianças querem a amamentação para manipular as mães em situações familiares. Isso pode soar estranho aos leigos. Como uma criança de um ano ou dois pode manipular os adultos? Quem é mãe ou trabalha com elas sabe que isso é possível sim. Deve-se estar atento para isso, pois a criança se expressa nesse movimento de demanda constante à mãe.

O último caso é o das mães que não querem parar de amamentar e sentem o desmame como um afastamento muito grande da criança. Elas devem buscar ajuda para entenderem o que ocorre. Exatamente por não dar limites, elas podem dificultar a separação natural com a criança e permitir que elas se interessem pelo ambiente o redor. Inclusive, esses casos inspiram preocupações. O que acontece com essa mulher que ela precisa ou permite tanta proximidade com a criança? Crianças de 6, 7 anos não precisam de leite materno para sua nutrição. É uma intimidade que ultrapassa a relação mãe e filho. A mulher precisa voltar a ter seus interesses próprios e retomar sua vida como sujeito. A criança deve crescer e ter a sua vida própria. Assim, esses casos podem ser trabalhados com a ajuda de um profissional de saúde mental, para que a separação entre mãe e criança possa ser feita.

Abraços

Caroline

Existem benefícios em um atendimento psicanalítico para crianças autistas?

21 nov

No caso do autismo o tempo é um fator importantíssimo para pensarmos em avanços terapêuticos. Graças aos avanços nas pesquisas e treinamento dos profissionais da saúde, o diagnóstico está ocorrendo mais cedo, ainda na primeira infância. Isso possibilita melhorias importantes para o sujeito autista e sua família. Alguns estudos têm desenvolvido protocolos de sinais e sintomas para que o pediatra possa ter, mais facilmente, indicadores para risco psíquico infantil (entre eles o autismo), inclusive apoiados pelo Ministério da Saúde.

Os autistas geralmente recebem prognósticos limitadores, bem como escassez de tratamentos eficientes. Um tratamento em voga atualmente e recomendado pelos médicos é a terapia cognitivo-comportamental (TCC), com enfoque nos comportamentos e no aprendizado. Contudo, a psicanálise pode ser um tratamento com mais possibilidades, pois aposta que ali há um sujeito e não apenas comportamentos resultantes de uma síndrome orgânica. Isso não invalida os resultados da TCC, mas aponta para uma insuficiência.

Ao atender o sujeito autista, existe uma aposta na linguagem, no simbólico e na possibilidade de vínculo entre ele e o mundo. Outro ponto importante são os atendimentos aos familiares, para que possam dar espaço e cuidado ao sofrimento e a dificuldade de lidar com quadros tão difíceis. Alguns atendimentos são de forma conjunta e podem acontecer muito precocemente, entre mães, pais e bebês. Ao contrário do que algumas linhas teóricas afirmam tal condução clínica não significa que a psicanálise condena os pais, em especial a mãe, como responsável pela doença do filho. Atender pais e filhos juntos é uma tentativa de fazer vínculo entre eles, ajudando no tratamento e no dia-a-dia da família.

Algumas instituições oferecem tratamento a preços populares, eventualmente, até gratuitos. Em São Paulo: Projeto Espaço Palavra da Clínica da PUC, Lugar de Vida, Clínica Psicológica da USP, Rede clínica do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo, são sólidas no atendimento psicanalítico.

Boa sorte e até o próximo post!

 

Links com um trabalho muito interessante da área:

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1415-71282006000200010&script=sci_arttext

 

 

 

 

Podemos falar em causas de autismo?

13 ago

Quantos de vocês já viram uma criança estranha, esquisita, com um comportamento diferente das demais? Muitas delas podem apresentar alguma manifestação do espectro autista. De forma muito simplificada, o autismo pode ser caracterizado por uma disfunção global do desenvolvimento que afeta diversas áreas do indivíduo como a linguagem, as relações sócio-afetivas e o aparelho cognitivo e motor.

Apesar das novas pesquisas no campo biomédico, as causas da síndrome ainda são desconhecidas. O campo médico desenvolve teorias de caráter genético, imunológico e influências ambientais (como vacinas) para tentar dar conta de uma explicação. Entretanto, ainda não há certezas sobre as causas.

O campo da psicologia tentou usar fatores ambientais e familiares para explicar a doença. De modo geral, teorias desastrosas de culpabilização dos pais, em especial da mãe, não contribuíram para aliviar o sofrimento das famílias. Termos como mãe geladeira, mãe fria ou ausente foram desenvolvidos para justificar o comprometimento do autista.

A psicanálise sofreu críticas sobre seu modo de ver a questão, mas algumas linhas posicionam-se contrariamente a essa culpabilização materna. O trabalho de Marie Christine Laznik mostra o sofrimento das mães frente a não resposta do bebê, a falta de olhar e não capacidade de fazer vínculos amorosos. Desse modo, o sujeito tem uma responsabilidade pelo seu sofrimento e precisa de tratamento o mais rápido possível. É disso que trataremos no próximo post.

Um abraço!

Você deixa seu filho crescer?

31 maio

Você deixa seu filho crescer? A primeira vista parece uma pergunta estranha.

Como assim? Crescer é algo complexo e não tem a ver somente com crescer fisicamente. Crescer significa explorar o mundo e se relacionar com ele de modo independente.

Muitos pais se referem aos seus filhos como bebês, mesmo com 2 ou 3 anos. Mas ele não é mais um bebê e pode perceber a contradição. Algumas crianças ficam assim “pressas” no rótulo de bebês e se arriscando pouco no contato com o mundo exterior. Isso pode ser visto em crianças que demoram para sair das fraldas, têm medo constante de estranhos e não conseguem se afastar dos pais (mesmo em ambientes seguros, como a escola).

Permitir que a criança cresça implica em proporcionar desafios, estimulação e se surpreender com o que ela pode dizer e fazer. É tão gostoso ver uma criança aprendendo coisas, tendo seu próprio espaço em casa e na escola, tendo uma rotina própria… Quando isso é valorizado, podemos observá-la contando sobre suas experiências, por exemplo, como foi seu dia na escola ou com a babá. Assim, ela troca com seus pais suas vivências, criando intimidade.

Aproveitem o desafio e deliciem-se com o desenvolvimento de seus filhos!

Um abraço!

A importância em se colocar limites nas crianças – A parte da escola

9 maio

Antes de começar o post de hoje quero pedir desculpas, aos meus leitores, por minha ausência.  Tive dias corridos, muito trabalho e não foi possível atualizar o blog como eu gosto. Ufa, mas agora vamos lá falar da escola e dos limites!

 

A escola pode desempenhar um fator importante na criação dos nossos filhos. Por isso é tão essencial a escolha por uma boa escola, principalmente em relação ao estabelecimento de regras e limites. Algumas escolas acham que devem deixar as crianças livre, mas isso não significa deixá-las fazerem o que quiserem. Boas escolas trabalham com combinados de grupos, rotinas, regras de conduta… Mas o que são essas balizas? São meios de comunicar à criança o que pode ou não ser feito. Por exemplo: bater no amigo não pode. Tente conversar. Podemos comer na hora do lanche, mas não no horário da aula. Apesar de simples, essas falas ajudam muito no entendimento da criança pelas regras de grupos e na organização temporal.

Por ser um ambiente onde a criança estará sozinha, na escola ela precisará se adaptar ao funcionamento de um lugar não familiar, com regras preestabelecidas e que não dependem apenas da vontade dela. As amizades também oferecem uma boa oportunidade de conhecer os sentimentos dos outros e o desabrochar da sensação de respeito. Afinal, as próprias crianças, em seus pequenos grupos, irão aprender a dizer sobre si e o que gostam ou não em um amigo.

Desse modo, fatores externos ajudam no estabelecimento de regras e na formação da conduta social. A escola talvez seja o mais relevante e deve fazer sua parte.

Um abraço!

A importância em se colocar limites nas crianças: A parte dos pais

15 mar

O tema dos limites nas crianças nem sempre é fácil de ser discutido. Isso porque, ao contrário do que muitos dizem, não existem regras prontas que possam ser ensinadas aos pais. Por isso, discutirei em três posts os desafios de criar os filhos, segundo a perspectiva do estabelecimento de limites na infância.

Primeiro ponto: os pais. Limites e educação geralmente se relacionam com a criação dos próprios pais e muito dessa história paterna afetará o desenvolvimento da criança. Isso não é um problema, mas sim um modelo forte que contribui inevitavelmente e que precisa ser trabalhado. Os pais amam muito seus filhos e, às vezes, esse é um amor cego. Eles permitem que os filhos façam tudo o que desejam, criando pequenos tiranos. É comum observarmos na clínica psicológica o baixo nível de tolerância à frustração nas crianças. Mas o que é isso? Na verdade é bem simples: são crianças que não toleram ser contrariadas. Tudo tem que ser do seu jeito, na sua hora.

A missão aqui é mostrar aos pais que os limites são fundamentais. Digam poucos nãos, mas quando os disser é importante manterem o não. O não fornece a sensação de limite, mas também de segurança. É a baliza que mostra até onde a criança pode ir. Eu sei que falar é fácil, mas fazer é difícil. Somos humanos e não queremos que nossos filhos sofram… Mas isso é necessário. É indispensável para a criança. Pais que educam de verdade não são castigadores, mas quem possibilita a primeira sensação segura e real com o mundo.

O próximo post é sobre o papel da escola! Não percam!

Abraços…