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Queria tanto um parto normal, mas eu não consegui…

28 ago

É impressionante como é comum ouvir essa frase. Não só no consultório, mas no shopping, no cabeleireiro, nas festas, no mundo social em geral. “Eu queria tanto um parto normal, mas não deu”. Os motivos são os mais bizarros e injustificáveis do ponto de vista da saúde pública, isso é fato: meu bebê era grande demais, tinha circular de cordão, eu não dilatei, entre outros.

O desejo por um Parto Normal pode virar um fracasso para a mulher

  O desejo por um Parto Normal pode virar um fracasso para a mulher

 

Obviamente não somos ingênuos e sabemos da indústria da cesárea no país. Observamos a postura adotada por alguns médicos que olham apenas para sua conveniência, praticidade e bolso. Entretanto, o que não olhamos ou não queremos saber é para a tristeza das mulheres que dizem isso ou o sentimento gerado por essa “não conquista”.
 

O discurso do empoderamento feminino é bárbaro. Aponta as possibilidades de fortalecimento, autonomia e liberdade de escolhas. Mas existe um efeito colateral: a frustração e o fracasso. “Eu não consegui um parto normal” pode ser entendido por elas como “Eu não fui capaz, eu não consegui”. E isso nem sempre é verdade. No parto intercorrências podem surgir e nem sempre isso depende da mulher.

A sensação de fracasso gerada no pós-parto pode ser tão intensa que chega a atrapalhar a vinculação da mulher com seu bebê, inclusive gerando um sentimento de incapacidade materno. Um exemplo clássico é a dificuldade posterior com a amamentação. Culpabilizar a mulher por um suposto insucesso é perigoso!

Uma mulher que não teve parto normal não é menos mãe ou menos mulher. O parto é uma etapa da maternidade e não reflexo definitivo dela. Vamos ouvir mais e julgar menos? Afinal, a verdadeira humanização, a meu ver, é a particularização do olhar.
Abraços!
Caroline

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Mielomenigocele: cuidados e perspectivas

19 jun

Olá. Esse post apresenta a última parte da entrevista com Julia, mãe da lindinha Clara. Vai falar sobre o parto, os cuidados físicos e psíquicos e as perspectivas de futuro. Espero que gostem!

 

Caroline – Como foi o parto?

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Júlia – Super tranquilo. Muitos médicos conhecidos, minha família, meu marido. Ninguém tava nervoso, conversamos sobre amenidades. Minha família pôde ver na encubadora. Ela nasceu com 31 semanas porque minha cicatriz uterina da cirurgia estava rompendo. Não foi possível  segurar mais. Ela nasceu com 1,575kg. Mas nasceu bem, não usou aparelho para respirar.

 

 

Caroline – Como foram os primeiros dias após o nascimento da Clara?

Júlia – Esse foi o pior momento, quando ela foi para UTI neonatal. Foi triste vê-la quando ela nasceu. Muito magrinha, com as perninhas tortas. Cheia de acessos. Toquinha de gaze, pelada. Imagem chocante. Foi bom que ninguém mais viu, que não podiam ir visitas. Na própria UTI ela usou tala, a perninha foi voltando. Quando veio para casa já tava mais gordinha, tinha quase um mês.

A UTI horrível. É ruim ir embora e deixar o seu filho… Eu passava o dia todo lá. Só saia após a troca de plantão. Queria falar: gente, essa é minha filha, cuida dela. Eu ficava lá pelo amor, pela vontade de estar com ela.

 

Caroline – Você percebeu efeitos da sua presença na recuperação dela?

 

Júlia – Sim, desde o canguru. Ela adorava. Meu jeito ajudou, sou bem otimista. Sempre acho que as coisas vão dar certo. Minha família me apoiava 100%.

Na UTI tinha uma equipe bacana. Tinha uma psicóloga que passava todo dia. Ela conversava, fazia reuniões. Também tinha as outras mães. Vi que não era só comigo que isso tinha acontecido. Comecei a pensar que meu problema não é tão grande, tem milhares de outros problemas no mundo. Ao mesmo tempo que é muito ruim estar lá, também é muito bom ver que não é só com você.

 

Caroline – Que cuidados a Clara precisa hoje? Como vocês lidam com a mielo?

 

Júlia – O principal cuidado é com a locomoção. A Clara é estimulada desde pequena. Faz natação, fisioterapia, hidroterapia. Tomo cuidado porque ela não pode engordar. Sua saúde é ótima, ela é forte.

Um ponto que sempre me perguntam é se ela vai andar ou não. Fico preocupada com isso. Mas não é o mais importante. Ela tem o tempo dela e tudo que está ao meu alcance está sendo feito. Dizem que 95% das crianças, com a mesma lesão que a Clara tem, não vão andar. Mas tento junto com os médicos me focar nos 5%.

Optei por um tratamento domiciliar de fisioterapia várias vezes por semana. Mas percebo que há várias batalhas que não só a doença em si. Um exemplo é a falta de acessibilidade para ela. Rampas de acesso, banheiros públicos adequados. Vou brigar pelos direitos dela, e apoiá-la sempre para que seu acesso seja garantido.

 

Caroline – Nesse ponto as redes sociais são importantes?

Júlia – Penso que é importante ela ter contato com outras crianças que também tem dificuldades. É importante trocar experiências. Fico pensando: cadê as crianças com necessidades especiais? Como as crianças vão lidar com ela?

Faço parte de redes sociais que discutem a mielomeningocele e a cirurgia a céu aberto. Troco com as outras mães minhas dúvidas e as vivências e as delas também.

 

Caroline – E como está sua vida depois que ela nasceu?

 

Júlia – Eu resolvi parar de trabalhar porque quero acompanhar ela. Quero ver ela na fisio, nas atividades. Estimular. Não vou deixar com os outros se eu posso estar com ela. Sou muito apegada e ainda não consigo deixá-la. Deixo no horário que ela está dormindo. É difícil sair. Ainda estou no processo. É muito prazeroso ver a evolução dela. Ver que nosso esforço está valendo a pena.

Acho que minha vida mudou porque tive um bebê, mas não pelo fato dela ter mielo. Um bebê muda a vida. Penso em ter mais filhos, acho muito importante ter irmãos. Irmãos são mais importantes do que estudar na melhor escola. Irmão é um amigo seu para a vida toda e eu quero que ela tenha isso.

 

Caroline – Que mensagem você deixaria para as mulheres que recebem esse diagnóstico?

 

Júlia – Diria para saírem do Google e conversarem com o médico. Diria para elas buscarem informações atualizadas. Hoje as crianças tem qualidade de vida, mesmo as que não são operadas intra-utero. É algo que vale a pena. É um mundo novo que você descobre. Nunca imaginei que tinha tanta gente com tantos problemas. Mas não é o fim do mundo.

Hoje muita gente acha um absurdo ter um bebê doente. Até falam isso para mim, mas não me incomodo. A pessoa não sabe o que está falando. É muito fácil falar quando não é com você. A pessoa pode ter um filho que não tem nada e amanhã ou depois algo pode acontecer. Quando você escolheu ter um filho você tem que estar disposta a tudo. Câncer. Sabe-se lá. Tem que aceitar o que vier. Vamos dar a melhor qualidade de vida que ela poder ter.

 

Agradeço muito a participação da Júlia e da Clara no blog. Espero que ela possa ajudar a outras mulheres e famílias em um momento delicado.

Algumas redes e blogs de mães e famílias portadoras de mielo são uma boa fonte de troca e informação, entre elas o blog Vencendo a Mielo e a rede do Facebook Mielomeningocele (troca de experiências)

Obrigada!

Caroline

Como escolher um obstetra ou uma parteira?

22 nov

A escolha do obstetra ou de uma parteira deve ser feita cuidadosamente. Infelizmente, para a maioria das mulheres essa escolha não se dá livremente, devido a fatores como imposições de planos de saúde, profissionais reduzidos no SUS ou baixo conhecimento do tema.

Entretanto, a mulher pode e deve se preocupar com a qualidade do profissional que irá realizar seu parto. É muito comum ouvir as lamentações de mulheres que desejavam um parto normal, mas que (pelos motivos mais absurdos) foram submetidas às operações cesarianas. Sim, operações. Outra história comum é o abandono das mulheres no momento do parto, pois o médico alega ganhar pouco pelo procedimento. Nesses casos, quem faz o parto é o plantonista ou a mulher precisa ser removida para outra unidade de saúde.

Deixo algumas dicas que podem ajudar na análise do profissional:

1)      Peça indicações de pessoas conhecidas que gostam e recomendam o profissional.

2)      Muitos médicos dizem que fazem parto normal, mas na hora não fazem. Se você prioriza um parto normal, procure indicações de pessoas que você conheça que tenham conseguido parir por essa via.

3)      Perceba como é o atendimento no pré-natal. Observe se o profissional é atencioso, interessado e cuidadoso. Um ponto importante: veja se ele te escuta e respeita suas preferências sobre o andamento da gravidez e parto.

4)      Você pode fazer uma pesquisa na internet para saber o que dizem sobre o profissional. Trabalhos, congressos e o próprio currículo podem estar online. Uma dica é usar a plataforma Lattes (um site que reúne o currículo de profissionais que são pesquisadores, formadores ou atuam em programas do Governo). É só digitar o nome do profissional e ver o que aparece. O link é: http://lattes.cnpq.br/

Espero que essas orientações sirvam de auxílio! Um abraço!

Mais dinheiro para estádios de futebol! Cadê o esforço público em reduzir a mortalidade materna?

20 out

 

 

Baixa qualidade da assistência na gravidez

A baixa qualidade da assistência à gravidez não reduz a mortalidade materna no Brasil

Um recente estudo publicado na conceituada revista The Lancet apontou que o Brasil não conseguirá cumprir com as metas estabelecidas para a redução da mortalidade materna no país. Alguns fatores são apontados para o descumprimento, entre eles o excesso de cesarianas.

Entretanto, acredito que a vontade política faz toda a diferença. É assustador ver o montante de dinheiro investido em obras eleitoreiras, como os estádios da Copa de 2014. Somente a obra do “novo Maracanã” custará algo em torno de R$1 bilhão de reais. Imaginem como esse dinheiro poderia ajudar na construção de hospitais, casas de parto e melhorias na equipe e na estrutura de atendimento à mulher e aos bebês! Pena que isso não dê votos nas urnas…

Se o Governo priorizasse a atenção à saúde materna infantil talvez as metas de redução pudessem ser atingidas até 2015. Triste inversão de valores. Cabe a nós questionar essas prioridades. Vocês podem acessar uma matéria sobre o tema no site da BBC, o link segue abaixo. Vamos reivindicar o direito universal à saúde de qualidade!

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/09/110920_mortalidade_brasil_pu.shtml

A banalização da cesariana: todo mundo faz, todo mundo quer

14 out

O número de partos cesáreos realizado no Brasil cresce assustadoramente. Entretanto, as pessoas recorrem à cesárea cada vez mais baseadas em argumentos que não se sustentam cientificamente. Traduzindo: nem sempre o que nos contam são verdades. Um parto cesáreo mal indicado pode complicar muito o desfecho do nascimento, inclusive levando a sofrimento e danos físicos e psicológicos.

Mas por que se fazem mais e mais cesáreas? Dois movimentos ajudam a explicar: 1) o movimento médico, que coloca a cesariana como padrão de atendimento de qualidade; 2) as mulheres, que cada vez mais acreditam que um parto cesáreo não envolve dor. O agendamento da cesariana é tão comum, que hoje as mulheres marcam o parto, unha e cabeleireiro para estarem bonitas na maternidade.

Não se trata de ser contra a medicina: ela salva vidas e a cesariana é útil em muitos casos. Trata-se de questionar o abuso de uma gama de intervenções que nem sempre são benéficas para mãe ou o bebê, como a episiotomia (mais conhecida como corte do períneo), por exemplo.

O documentário The Business of Being Born explora a medicalização do parto e aponta a importância de informações seguras para a mulher decidir sobre seu parto. Afinal, como defendem as mulheres do documentário, quem dá a luz ao bebê é a mulher e não o médico ou a parteira. Eles estão lá para auxiliar na tarefa do nascimento. O vídeo segue abaixo. Aproveitem!