Tag Archives: Maternidade

Será mesmo a maternidade a melhor coisa da vida?

4 jun

ImageOntem foi publicada uma coluna na Folha de São Paulo intitulada “Nem todo mundo está feliz com a maternidade” escrita por Cláudia Collucci. De modo interessante, a colunista traz a tona números que apontam para a insatisfação de mulheres em relação à maternidade. Entretanto, por que isso não é visto por aí? Por que as mulheres não falam de suas tristezas em relação ao papel de mãe? E além disso, por que será que os pais não são ouvidos? Parece que essa questão só pode ser vista quando algum bebê é colocado em uma lixeira, como bem ilustra a matéria.

Podemos tentar construir algumas respostas. A maternidade é descrita socialmente como um momento de plenitude, amor, com um ar quase sacralizado. Os coletivos maternos e grupos feministas têm discursos muito fortes, pautados no bem estar do bebê e no mágico momento vivido com a maternidade. A impressão que isso causa é de que é impossível para as famílias falarem de seus sofrimentos e dificuldades em relação aos filhos. Muitas mulheres tem suas vidas totalmente modificadas pela chegada do bebê e nem sempre a mudança é para melhor. É alto o número de casais que se separam após a chegada dos filhos, as mulheres perdem seus empregos e tem dificuldade de contribuir nas despesas familiares. Soma-se a isso o sentimento de perda de identidade, não reconhecimento do corpo e a preocupação de não responder conforme esperado. O discurso para a mãe é seja feliz! Ame seu bebê! É até mais que um discurso, é um imperativo.

Talvez a tristeza de algumas mulheres mostre como nem tudo são rosas e isso ameaça a força dos grupos. Assim, o movimento social de silenciar as insatisfações permeia as mulheres e seus companheiros que tem somente a solidão e frustração como guias. Não seria mais interessante acolher essas famílias do que silenciá-las e atacá-las? Essa pode ser uma forma para evitar que tragédias aconteçam. Que os rompimentos nos vínculos tornem caminhos irreversíveis. É para pensar…

Caroline

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Você já ouviu falar na hora do terror?

29 out

Quem tem filhos deve conhecer ou já ouviu falar na hora do terror. Esse é um nome engraçado para aquele famoso horário de final de tarde, quando as crianças ficam irritadas e inquietas.

Alternativas para pensar a hora mais cansativa do dia

Alternativas para pensar a hora mais cansativa do dia

Esse período geralmente é um momento difícil para os pais e cuidadores da criança e as brigas costumam acontecer.
O problema é que todos estão cansados e a possibilidade de negociação fica mais escassa.
Uma boa alternativa é usar recursos lúdicos para que o momento tenso possa se tornar mais divertido. Algumas mães tem saídas interessantes:
– propor um passeio curto de carro ou a pé. Os estímulos externos despertam curiosidade nas crianças e relaxamento aos adultos;
– atividades de desenho, pintura, argila. A fluidez do materiais e mobilidade permitem a livre expressão.
– banho, água, piscina. Ótimo horário para natação ou aquele banhinho sem pressa. Relaxamento das crianças que trará paz aos pais durante a noite.
Crianças mais calmas e felizes, sem erro.
Pais mais disponíveis e atividades agradáveis para ambos é uma estratégia para evitar confrontos desnecessários e trazer mais harmonia,

Um abraço,

Caroline

Queria tanto um parto normal, mas eu não consegui…

28 ago

É impressionante como é comum ouvir essa frase. Não só no consultório, mas no shopping, no cabeleireiro, nas festas, no mundo social em geral. “Eu queria tanto um parto normal, mas não deu”. Os motivos são os mais bizarros e injustificáveis do ponto de vista da saúde pública, isso é fato: meu bebê era grande demais, tinha circular de cordão, eu não dilatei, entre outros.

O desejo por um Parto Normal pode virar um fracasso para a mulher

  O desejo por um Parto Normal pode virar um fracasso para a mulher

 

Obviamente não somos ingênuos e sabemos da indústria da cesárea no país. Observamos a postura adotada por alguns médicos que olham apenas para sua conveniência, praticidade e bolso. Entretanto, o que não olhamos ou não queremos saber é para a tristeza das mulheres que dizem isso ou o sentimento gerado por essa “não conquista”.
 

O discurso do empoderamento feminino é bárbaro. Aponta as possibilidades de fortalecimento, autonomia e liberdade de escolhas. Mas existe um efeito colateral: a frustração e o fracasso. “Eu não consegui um parto normal” pode ser entendido por elas como “Eu não fui capaz, eu não consegui”. E isso nem sempre é verdade. No parto intercorrências podem surgir e nem sempre isso depende da mulher.

A sensação de fracasso gerada no pós-parto pode ser tão intensa que chega a atrapalhar a vinculação da mulher com seu bebê, inclusive gerando um sentimento de incapacidade materno. Um exemplo clássico é a dificuldade posterior com a amamentação. Culpabilizar a mulher por um suposto insucesso é perigoso!

Uma mulher que não teve parto normal não é menos mãe ou menos mulher. O parto é uma etapa da maternidade e não reflexo definitivo dela. Vamos ouvir mais e julgar menos? Afinal, a verdadeira humanização, a meu ver, é a particularização do olhar.
Abraços!
Caroline

Mielomenigocele: cuidados e perspectivas

19 jun

Olá. Esse post apresenta a última parte da entrevista com Julia, mãe da lindinha Clara. Vai falar sobre o parto, os cuidados físicos e psíquicos e as perspectivas de futuro. Espero que gostem!

 

Caroline – Como foi o parto?

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Júlia – Super tranquilo. Muitos médicos conhecidos, minha família, meu marido. Ninguém tava nervoso, conversamos sobre amenidades. Minha família pôde ver na encubadora. Ela nasceu com 31 semanas porque minha cicatriz uterina da cirurgia estava rompendo. Não foi possível  segurar mais. Ela nasceu com 1,575kg. Mas nasceu bem, não usou aparelho para respirar.

 

 

Caroline – Como foram os primeiros dias após o nascimento da Clara?

Júlia – Esse foi o pior momento, quando ela foi para UTI neonatal. Foi triste vê-la quando ela nasceu. Muito magrinha, com as perninhas tortas. Cheia de acessos. Toquinha de gaze, pelada. Imagem chocante. Foi bom que ninguém mais viu, que não podiam ir visitas. Na própria UTI ela usou tala, a perninha foi voltando. Quando veio para casa já tava mais gordinha, tinha quase um mês.

A UTI horrível. É ruim ir embora e deixar o seu filho… Eu passava o dia todo lá. Só saia após a troca de plantão. Queria falar: gente, essa é minha filha, cuida dela. Eu ficava lá pelo amor, pela vontade de estar com ela.

 

Caroline – Você percebeu efeitos da sua presença na recuperação dela?

 

Júlia – Sim, desde o canguru. Ela adorava. Meu jeito ajudou, sou bem otimista. Sempre acho que as coisas vão dar certo. Minha família me apoiava 100%.

Na UTI tinha uma equipe bacana. Tinha uma psicóloga que passava todo dia. Ela conversava, fazia reuniões. Também tinha as outras mães. Vi que não era só comigo que isso tinha acontecido. Comecei a pensar que meu problema não é tão grande, tem milhares de outros problemas no mundo. Ao mesmo tempo que é muito ruim estar lá, também é muito bom ver que não é só com você.

 

Caroline – Que cuidados a Clara precisa hoje? Como vocês lidam com a mielo?

 

Júlia – O principal cuidado é com a locomoção. A Clara é estimulada desde pequena. Faz natação, fisioterapia, hidroterapia. Tomo cuidado porque ela não pode engordar. Sua saúde é ótima, ela é forte.

Um ponto que sempre me perguntam é se ela vai andar ou não. Fico preocupada com isso. Mas não é o mais importante. Ela tem o tempo dela e tudo que está ao meu alcance está sendo feito. Dizem que 95% das crianças, com a mesma lesão que a Clara tem, não vão andar. Mas tento junto com os médicos me focar nos 5%.

Optei por um tratamento domiciliar de fisioterapia várias vezes por semana. Mas percebo que há várias batalhas que não só a doença em si. Um exemplo é a falta de acessibilidade para ela. Rampas de acesso, banheiros públicos adequados. Vou brigar pelos direitos dela, e apoiá-la sempre para que seu acesso seja garantido.

 

Caroline – Nesse ponto as redes sociais são importantes?

Júlia – Penso que é importante ela ter contato com outras crianças que também tem dificuldades. É importante trocar experiências. Fico pensando: cadê as crianças com necessidades especiais? Como as crianças vão lidar com ela?

Faço parte de redes sociais que discutem a mielomeningocele e a cirurgia a céu aberto. Troco com as outras mães minhas dúvidas e as vivências e as delas também.

 

Caroline – E como está sua vida depois que ela nasceu?

 

Júlia – Eu resolvi parar de trabalhar porque quero acompanhar ela. Quero ver ela na fisio, nas atividades. Estimular. Não vou deixar com os outros se eu posso estar com ela. Sou muito apegada e ainda não consigo deixá-la. Deixo no horário que ela está dormindo. É difícil sair. Ainda estou no processo. É muito prazeroso ver a evolução dela. Ver que nosso esforço está valendo a pena.

Acho que minha vida mudou porque tive um bebê, mas não pelo fato dela ter mielo. Um bebê muda a vida. Penso em ter mais filhos, acho muito importante ter irmãos. Irmãos são mais importantes do que estudar na melhor escola. Irmão é um amigo seu para a vida toda e eu quero que ela tenha isso.

 

Caroline – Que mensagem você deixaria para as mulheres que recebem esse diagnóstico?

 

Júlia – Diria para saírem do Google e conversarem com o médico. Diria para elas buscarem informações atualizadas. Hoje as crianças tem qualidade de vida, mesmo as que não são operadas intra-utero. É algo que vale a pena. É um mundo novo que você descobre. Nunca imaginei que tinha tanta gente com tantos problemas. Mas não é o fim do mundo.

Hoje muita gente acha um absurdo ter um bebê doente. Até falam isso para mim, mas não me incomodo. A pessoa não sabe o que está falando. É muito fácil falar quando não é com você. A pessoa pode ter um filho que não tem nada e amanhã ou depois algo pode acontecer. Quando você escolheu ter um filho você tem que estar disposta a tudo. Câncer. Sabe-se lá. Tem que aceitar o que vier. Vamos dar a melhor qualidade de vida que ela poder ter.

 

Agradeço muito a participação da Júlia e da Clara no blog. Espero que ela possa ajudar a outras mulheres e famílias em um momento delicado.

Algumas redes e blogs de mães e famílias portadoras de mielo são uma boa fonte de troca e informação, entre elas o blog Vencendo a Mielo e a rede do Facebook Mielomeningocele (troca de experiências)

Obrigada!

Caroline

Mielomeningocele: diagnóstico e decisão sobre manter a gestação

12 jun

Nessa primeira parte da entrevista vou apresentar nossas personagens, Júlia e a fofíssima Clara. Os assuntos abordados aqui foram o diagnóstico da mielomeningocele e os aspectos emocionais dessa descoberta. A possibilidade da cirurgia intra-útero também é discutida. Aproveitem!

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A maternidade de uma bebê linda e esperta. É possível olhar para o bebê para além da mielo

Júlia era uma mulher que trabalhava muito, de vida agitada que resolve, junto com seu marido, engravidar. Logo no primeiro mês, meio sem esperar, a notícia da gravidez chega. Isso os pegou de surpresa pela rapidez, mas Júlia e Márcio ficam felizes pela notícia que mudará para sempre suas vidas. A maternidade e a paternidade serão novos papéis a serem aprendidos e vivenciados.

Caroline – Como foi o momento do diagnóstico?

Júlia – O diagnóstico foi feito durante o segundo exame de ultrassom, com 12 semanas. O primeiro ultrassom com 6 semanas foi ok, nada de errado. Estava um pouquinho angustiada para esse segundo exame. Tinha planejado viajar com toda a família para fazer o enxoval do bebê e queria saber o sexo para acertar nas compras. Já sabia que era uma menina porque tinha feito o exame de sangue, mas queria ter certeza. Marquei a viagem para o dia seguinte ao exame. Queria ir tranquila.
Durante o exame soube o sexo, mas eu e meu marido percebemos um clima de tensão. A médica não conseguia tirar os olhos do monitor, fazendo uma expressão preocupada. Comexei a achar estranho e ficar preocupada. Perguntei para médica se estava tudo bem. Ela respondei que o pezinho do bebê estava torto e que iria conversar após o exame.
Ao final do exame a médica logo deu o resultado do exame: mielomeningocele. Eu nunca tinha ouvido falar em mielo. A médica explicou de um jeito bem gracinha. Que poderia ter vários problemas. A doutora disse para eu não me preocupar e ligou para minha médica. Como o exame foi feito em um centro de especialidades em medicina fetal, ela conseguiu um encaixe imediatamente. Tudo foi imediato. Em dez minutos minha obstetra já sabia do problema e ela foi encaminhada a um médico especialista.

Caroline – E como você se sentiu nesse momento?
Júlia – Foi estranho sair chorando e ver todas aquelas mães me olhando na sala de espera. Horrível. Nem eu mesma sabia o que estava acontecendo. Não tive tempo para pensar em nada. Fui passando pelos médicos, fazendo exames… Desmarquei a viagem e só fui começar a pensar nisso a noite. Aí que consultei o Dr. Google, mas ele não é um bom amigo. Só vi coisas horríveis, as dificuldades, a realidade da doença…
Não vi informações sobre as cirurgias e nenhum tipo de tratamento. As informações não são confiáveis. Os médicos me disseram que tinha a cirurgia, que eu iria operar. Mas nem todos os médicos no país sabem da cirurgia e só aconselham o aborto. Muitos acham que ainda é um tratamento experimental. Tive sorte

Caroline – Houve alguma conversa sobre a possibilidade de aborto?

Júlia – No mesmo dia que soube Já dei a notícia que ia operar para todas as pessoas. Meus familiares souberam na hora. Nunca fiquei na dúvida sobre abortar ou não. Acho que não tive dúvidas porque foi super amparada pela equipe e a cirurgia foi posta como o caminho a ser seguido.
A possibilidade de abortar nem sequer passou pela minha cabeça ou do meu marido. Não decidi isso por motivos religiosos. Foquei na cirurgia e não considerei uma segunda opção.

Caroline – Como foi a cirurgia?

Júlia – Foi estranha a reação dos outros. Todos choravam quando eu contava o que iria passar. Parecia algo tão enorme tirar a criança da barriga e operá-la. Achavam um absurdo. Pior do que eu mesma. A ficha só caiu na sala de operação com o anestesista. Comecei a chorar, percebi que aquilo era realidade. Tinha o risco dela falecer.
Operei no dia certinho com 26 semanas. O principal objetivo da cirurgia era evitar a hidrocefalia. Mas isso não iria garantir se ela iria andar. Mesmo assim decidi fazer. Percebi que existem coisas mais difíceis do que usar cadeira de rodas. Isso não é algo que a levará a uma emergência, precisando de cirurgias frequentes.
Essa é uma cirurgia grande e precisa do apoio de toda a família. Meu cirurgião reforçava isso o tempo todo e tem razão. São necessários repouso e apoio familiar. Depois da cirurgia que eu vi como isso era muito difícil, pesado. Sempre fui muito otimista, mas aí caiu a ficha.
O pós-operatório é doloroso, senti um pouco de contração. Quando acaba a anestesia e eles introduzem medicação fica mais difícil. Vômitos, o desconforto da UTI. Precisei de uma semana no hospital em repouso total.

É impressionante como uma gestação pode mudar a vida da família e da mulher. O desejo por Clara foi uma luta. Uma luta pelo melhor possível, com os recursos disponíveis. O próximo post apresentará a segunda parte da entrevista, contando sobre o parto e a nova rotina com a chegada do bebê.

Até lá!

Caroline

Como escolher a maternidade ideal para a chegada do bebê?

25 fev

A chegada do bebê é um momento único para todas as grávidas. E, por incrível que pareça, a experiência do parto pode ser muito influenciada pelo local de nascimento escolhido para a grande hora! Ufa, são tantas coisas a pensar: localização, preferência do médico, locais cobertos pelo plano de saúde, falta de vagas…

  1. A preferência do médico deve ser ouvida com carinho. Isso porque quando ele está acostumado a trabalhar em uma determinada instituição ele pode conhecer e se relacionar melhor com a equipe de saúde. Isso também pode facilitar para uma internação mais ágil e menos burocrática.
  2. Cheque com o convênio de saúde todos os locais disponíveis. Não deixe de visitá-los e aproveite para conversar com profissionais que lá atendem.
  3. Converse com outras mulheres que tiveram seus bebês no local escolhido. Veja se elas gostaram do atendimento recebido e se recomendam a instituição.
  4. Se você usa o SUS não deixe de ter algumas opções. Talvez você pode não ser atendida na unidade escolhida e precise recorrer à outra instituição. Mesmo que uma boa maternidade seja distante de sua casa ela poderá ser usada.
  5. Ao optar por uma casa de parto conheça o local e siga as dicas acima. Em casos de partos normais e pacientes de baixo-risco elas podem ser uma ótima opção.
  6. Em casos de gravidez com complicações é importante o local oferecer recursos como UTI neonatal e materna.
  7. Para finalizar a principal dica: não se impressione apenas pela beleza do local! Algumas maternidades são lindas, modernas, mas fornecem um atendimento desumano e totalmente rotinizado, ou seja, sem individualização de gestante para gestante.

Boa sorte!